sexta-feira, 21 de março de 2008

Tradição de Sexta-Feira Santa...



Hoje, Sexta-Feira Santa, recordei uma tradição antiga da zona do Carregado e do nosso vizinho concelho de Azambuja.
Dada a proximidade com as margens do Tejo e o dever religioso de fazer jejum e abstinência, as familias passavam este dia santo a pescar e comiam aquilo que conseguiam pescar.
Pensava que esta tradição, que os meus pais me relataram, se tinha perdido no tempo mas hoje lembrei-me de ir verificar.

Fui até junto ao Tejo e, para minha alegria, verifiquei que esta tradição ainda se mantinha.
Encontrámos, eu e o meu marido, várias familias a preparar os grelhados para o seu almoço de Sexta-Feira Santa.
Conversámos com algumas, fotografámos e eu fiquei emocionada com uma delas, por sinal do Carregado, que preparava um prato que faz parte das minhas recordações de juventude, o Torricado. O meu pai fazia um torricado delicioso que eu adorava... vieram-me lágrimas aos olhos ao recordá-lo.

O Torricado é um prato típico desta região, tradicionalmente associado ao trabalho do campo, especialmente dos trabalhadores vitícolas.
Consiste numa forma prática de cozinhar o pão, torrando-o e untando-o de azeite e alho, de forma a acompanhar bacalhau assado ou sardinha assada.
Este prato tem a sua origem nos camponeses que tinham de se ausentar de casa por alguns dias, pois nem sempre as suas terras ficavam ao pé das suas residências.
Este facto obrigava-os a ter de fazer um "farnel", e como naquela altura era difícil conservar a comida, tinham de levar algo que não se estragasse.

Deixo aqui alguns apontamentos desta tradição e do meu passeio de hoje de manhã.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Fábrica de Lanificios Chemina...


Fundada por uma sociedade em comandita, a COMPANHIA DE LANIFÍCIOS DA CHEMINA ficou a dever-se à iniciativa dos irmãos José Joaquim e Salomão dos Santos Guerra, depois gerentes do estabelecimento.
Com projecto de José Juvêncio da Silva – que também projectou os Paços do Concelho - começou a edificar-se em Abril de 1889, em terrenos da antiga quinta ou Casal da Chemina, de onde adoptou o nome.

Foi inaugurada em Junho de 1890.
Pouco tempo depois empregava 200 operários de ambos os sexos e fabricava, entre outros produtos, xales, casimiras, castorinas, cintas, barretes e cobertores.
Ao contrário das fábricas suas contemporâneas, opta apenas pela força de uma máquina de vapor, quando a sua situação, junto do rio, lhe poderia proporcionar o uso do sistema hidráulico.
Pouco tempo mais tarde a sociedade proprietária transforma-se em sociedade anónima.
Boa parte do capital está nas mãos de industriais e banqueiros do Porto, como Cândido Ribeiro da Silva e Carlos José Alves.
José e Salomão Guerra, para além de gerentes da fábrica, asseguravam a chefia das secções de acabamento e tecelagem.
Antes da fundação da Chemina, haviam exercido idênticos lugares nas fábricas da Romeira e “do Meio”, razão porque terão deixado a sua terra de origem, Arrentela, concelho do Seixal, outro importante centro de produção de lanifícios.
Meio século depois da fundação, em 1940, a FÁBRICA DE LANIFÍCIOS DA CHEMINA, S.A.R.L., continua a fabricar os mesmos produtos.
Tem sede no Porto, na Rua Formosa, e a gerência está ainda confiada a um Guerra, Isidoro de Castro Guerra, sobrinho dos fundadores.
Mas em 1948 é já outra empresa que explora o estabelecimento.
Chama-se então FÁBRICA BARROS, LDA..
Por pouco tempo.
Entre 1949 e 1952 permanece fechada, até que se forma outra empresa que a adquire: a EMPRESA LANIFÍCIOS TEJO, LDA., que a reequipa e põe a funcionar.
Em 1977 emprega 160 trabalhadores.
Em 1994, à beira do fecho definitivo, ocupando apenas parte dos edifícios, emprega apenas 15 a 20 operários.

Em 2000, o edifício principal sofreu um violento incêndio e ainda se encontra, infelizmente, num estado de decadência que me faz sentir pena cada vez que olho o edificio em ruinas.
Os prédios são hoje propriedade municipal.
Espero que o municipio encontre maneira de reconstruir e reaproveitar este belo edificio praticamente no centro da vila...

domingo, 16 de dezembro de 2007

O Presépio de Alenquer...

Alenquer é conhecida por “Vila Presépio” e deve isso ao presépio que desde 1968 é montado no ermo da colina que constitui a denominada "vila alta".
Com cerca de 20 peças, algumas de 6 metros de altura, representativas das figuras bíblicas, desde o Menino, Maria, José e Reis Magos, até aos pastorinhos com seus animais, devidamente orientados por dois anjos da guarda, o presépio constitui um dos ex-líbris da vila, em tempo de Natal.

Surgiu no âmbito de um conjunto significativo de benfeitorias levadas a cabo na sequência das dramáticas cheias de Novembro de 1967, que deixaram de luto e em ruína a zona ribeirinha da vila.
Estas cheias de 1967 foram a maior catástrofe natural que alguma vez se abateu sobre Alenquer. As águas chegaram a atingir mais de 3 metros de altura e os mortos atingiram a meia centena.
Foi um tempo de tragédia mas também de imensa solidariedade.
Esqueceram-se desavenças familiares, conflitos entre vizinhos, classes sociais e tudo o resto.
Todos se uniram em torno do mesmo objectivo, resgatar Alenquer da lama e dos destroços.
Chegaram a ser cerca de 3 mil pessoas a trabalhar nas operações de limpeza e recuperação.
Foi a maior onda de solidariedade em Alenquer.

Este presépio de Alenquer é o simbolo do amor e da união que despontou entre os alenquerenses e é isso que o faz tão especial.
Não se trata de uma acção de promoção, de marketing turistico, como alguns possam pensar, mas sim de um simbolo de solidariedade e Amor ao próximo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A 1ª.linha férrea em Portugal...



Em 28 de Outubro de 1856, inaugurou-se o caminho de ferro de Portugal, com a 1ª linha férrea de Lisboa ao Carregado.

Desta inauguração transcrevo uma passagem do livro de memórias da Marquesa de Rio Maior (que à data era ainda criança ):

”Vou narrar o que me lembra do solene dia da inauguração que, enfim, chegou. Minha mãe não quis ir ao banquete do Carregado. Mas foi comigo para um cerro fronteiro à estação de Alhandra ver a passagem do comboio (….). Finalmente, avistámos ao longe um fumozinho branco, na frente de uma fita escura que lembrava uma serpente a avançar devagarinho. Era o comboio ? Quando se aproximou, vimos que trazia menos carruagens do que supúnhamos. O comboio parou por um momento na estação, de onde se ergueram girândolas estrondosas de foguetes (...).Só no dia seguinte ouvimos o meu pai contar as várias peripécias dessa jornada de inauguração. A máquina (...) não tinha força para puxar todas as carruagens que lhe atrelaram; e fora-as largando pelo caminho. Creio que se o Carregado fosse mais longe e a manter-se uma tal proporção, chegava lá a máquina sozinha ou parte dela. (...) Meu pai passou para a carruagem real, na qual chegou ao Carregado, onde assistiu aos festejos e comeu lautamente, porque o banquete era farto ".

Com esta inauguração, a máquina a vapor substitui as faluas do Tejo, e, gradualmente, os serviços regulares das carreiras da mala-posta.
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Esta é a estação do Carregado – Alenquer (Vala do Carregado) em que ainda se vê o edificio da estação, do lado direito, e que actualmente se encontra fechado, e a linha original que penso também já estar desactivada.
Quando lá fui fotografar (há anos que não passava por ali) estava completamente deserta.
Verifiquei que tudo estava mais moderno, o ir à bilheteira foi substituido por uma maquineta em que se coloca a moeda e sai o bilhete e, finalmente, uma voz gravada anuncia a chegada deste comboio e lá desceram uns passageiros.
Curiosamente, estava uma senhora a observar junto da velha estação, talvez a recordar tempos passados...

domingo, 2 de setembro de 2007

Pelo caminho da Estrada da Mala-Posta...


Seguindo a minha viagem no tempo, passei pela minha aldeia e pela minha casa mas não parei e fui à procura do marco seguinte, na estrada que vai dar ao Camarnal e onde podemos entrar de novo na estrada nacional, na direcção de Caldas da Rainha ou Leiria.

Não fui tão longe porque depressa cheguei ao meu destino e, na estrada da Várzea, parei de novo junto ao segundo marco, para o fotografar, admirar e tentar ler as palavras nele gravadas.
Penso que consegui “decifrar” correctamente e aqui vos deixo a inscrição:



DONA MARIA PRIMEIRA

RAINHA FIDELISSIMA DE PORTUGAL

NOSSA SENHORA

PIA.JUSTA.MEMORAVEL.

PARA UTILIDADE PUBLICA

MANDOU DEMARCAR COM ESTE PADRAO

AS LEGOAS DA CIDADE DE LISBOA

CAPITAL DO REINO PARA A PROVINCIA

COM DISTANCIAS DE TRES MIL

OUTOCENTOS E QUATRO PASSOS

GEOMETRICOS

SENDO INSPECTOR GERAL DAS ESTRADAS

REAIS E OBRAS PUBLICAS DE RIBATEJO

DOM JOSE LUIZ DE MENEZES

CONDE DE VALLADARES

NO ANNO DE M.DCC.LXXX.VIII.

UM DECIMO DESTE FELICISSIMO REINADO



Fiquei por ali algum tempo e resolvi voltar para trás mas, se tivesse seguido mais um pouco poderia apreciar a entrada da Quinta da Bemposta, local onde em tempos longinquos os cavalos e os viajantes descansavam.

Por vezes, porque a noite se aproximava, pernoitavam na estação e seguiam viagem de madrugada cedo porque os perigos eram muitos e as viagens eram bem mais dificeis naqueles tempos.

Carregado - Marco de Caminhos...


Vamos sair da vila de Alenquer para dar um salto à maior freguesia do concelho (em numero de habitantes), a freguesia do Carregado.
Nó central de eixos viários, desde os primórdios, (1ª linha dos caminhos de ferro, Lisboa - Carregado); cruzamento da Estrada Real Lisboa - Caldas da Rainha e Lisboa - Santarém, bem como pólo fluvial importante através do rio Tejo, desde Lisboa às Portas de Ródão, o Carregado continua hoje a sua tradição de nó central das linhas viárias que cruzam o País.
Esse facto está registado, como não podia deixar de ser na heraldica da freguesia em que o elemento central é “o marco de caminhos”.

Hoje de manhã, resolvi seguir o caminho de dois desses marcos até porque a meia distancia entre eles se encontra a minha casa, numa pequena aldeia com o nome de Obras Novas, com pouco mais de 300 habitantes.
Saindo do Carregado na direcção de Santarém, fiz uma paragem no primeiro para o fotografar e recordei os meus tempos de escola em que esperava a camioneta junto a esse marco que actualmente está num local mais elevado do que estava na época. Com a construção do autoestada (A1) a estrada nacional foi rebaixada e o marco ficou, por isso, isolado lá no alto, passando despercebido aos mais desatentos.
Nele se pode ver a indicação de “Estrada que se derige a Santarem Ano de 1788” do lado voltado para a estrada nacional e, de outro “Estrada de vem das Caldas da Rainha”. Esta indicação leva-nos a crer que esta estrada, possivelmente construída em cima de antigos caminhos romanos, já funcionava muito antes de 1850, ano a que se atribui o inicio da construção da Estrada Real entre Lisboa e Caldas da Rainha, passando por Carregado, Alenquer e Ota.
Por essa estrada, os passageiros e o correio seguiam em deligências de 6 lugares, puxadas por 4 cavalos e o preço de uma passagem entre o Carregado e Ota, com direito a 33 arráteis de bagagem (cerca de 15 Kg) era de 720 réis em primeira classe e 480 em segunda.

Foi por essa estrada que segui, a antiga Estrada da Mala-Posta, não numa “deligência” mas no meu carro... os tempos são outros mas, com um pouco de imaginação, retrocedi “um pouco” no tempo.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Convento de Nª.Srª.da Conceição...


Na encosta entre a Igreja de S. Francisco e a de S. Pedro, existem ainda grandes porções de altos muros, que formavam as paredes de vedação de uma cerca de grande superfície onde no seu interior estava edificado um Convento de Freiras da Ordem de Santa Clara, de invocação de Nª Sª da Conceição.

Podemos admirar ainda o bloco arquitectónico de forma cilindrica com pequena abóboda, que talvez correspondesse à Capela-Mór daquele Convento.
Uma extensa parede ainda bem conservada, serve de vedação da área do quartel da GNR de Alenquer; e outros grandes bocados de muros, que quase se confundem com muralhas, são visíveis em outros locais, e até uma parte deles está a ser "reconstruída" ou a beneficiar de obras de reforço, o que é bom de registar.

O Convento foi fundado em 1553, por João Gomes de Carvalho, que foi fidalgo da Casa d'El-Rei D.João III, e que se julga ter sido mestre notável em letras, na Universidade de Coimbra.

Com a extinção das Ordens Religiosas em 1834, os Conventos entraram em decadência e em ruína, passando a maioria deles ao Estado e à posse de privados.
Em 1860 a Cerca e casario do Convento passou para as mãos de Mr. Auguste Lafaurie, o fundador da Fábrica do Meio, que também já não existe.
Parece que ele, e o irmão, que se terá suicidado, foram sepultados ainda na zona da Capela-Mór do Convento.
Passou depois a propriedade para a sua filha D. Maria Carolina Augusta Lafaurie, mas em 1889 foi posta em venda em praça pública.
O domínio útil foi adquirido por João Marques de Sousa Ramalho e o domínio directo por António Ferreira Campos, que anos depois também comprou o domínio útil.
O século XX já lá vai, e hoje essa Cerca com o que resta do Convento, possuindo ainda e também algumas casas-dependências, que servem de habitações, continua a constituir propriedade privada.
Poderá a vir possivelmente a ser objecto de reconversão, no futuro, esperando que o seu actual proprietário concorde em preservar o bloco cilindrico ou octogonal, com pequena cúpula, que talvez seja uma boa parte da capela-mór que resistiu no grande decurso de quase quinhentos anos.